4 países, 7 cidades.

Quando eu nasci, uma das primeiras coisas que botaram na minha frente provavelmente foi um mapa. Não devo ter entendido nada (até pouco tempo atrás nem entendia mesmo), mas só isso explicaria essa vontade louca que eu sempre tive de viajar.
Ter noção da grandeza do mundo não é lá coisa muito fácil pra quem nunca se moveu por distâncias muito grandes (fui só à Disney 2 vezes e olhe lá), mas desde que Internet, National Geographic e as figurinhas do chocolate Supresa existem, o DNA VIAJANTE habita neste corpo que ao mundo pertence. Não que eu seja a típica desbravadora (nem tênis eu uso) ou fique 24h na frente da TV encantada com a programação de turismo: fato é que quando eu fico sabendo que determinado  lugar existe e me interesso, o bichinho da exploração me morde e aí é só inquietação interna INFINITA. E isso acontece desde que me conheço por gente.

O problema é que não é desde que me conheço por gente que eu conheço dinheiro.

Foi bem pequenininha que descobri que o ingresso pro mundo custa muito, muito caro. E desde pequenininha que eu acho isso muito, muito injusto. Porque se antes de completar uma década eu já me agoniava por não conhecer estes lugares, imagina hoje, com 25 longos anos na cara, a minha indignação por ver os anos passarem e não me ver passar por eles. É aí então que as coisas malucas acontecem: mudo de cidade, mudo de apartamento, mudo de opinião bruscamente, ou seja, viajo nas possibilidades que o meu mapa das circunstâncias dá. E  foi nesses riscos malucos de um canto a outro que eu fui um pouquinho mais longe. Fiz o porquinho engordar, tracei uma linha, jurei pra mim mesma que iria "fazer uma extravagância" e numa tarde de maio veio aquela voz conhecida do outro lado do telefone:

-    Mi, vamo pra Europa?


4 países, 7 cidades, 20 dias. Com o meu dinheiro, amigos e uma irmã que também já levou mordidas inquietas. E quando ela chamou, era como se eu sempre esperasse. Como se eu sempre estivesse pronta. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. 

02 de setembro, um mês antes do meu aniversário. Natural pra quem tá prestes a nascer de novo. Ou pra quem cresceu ouvindo “essa menina vai longe” e só conseguia pensar em qual país poderia ser o mais longe possível.

Mala pronta, coração na mão e mais alguns risquinhos colecionados no mapa, que a lista é grande mas a gente também é. E, finalmente, vou revidar cada mordida, ano a ano, sem parar. Antes, parecia só uma vontadezinha improvável. Agora, já é depois de amanhã. 


Dizem que quando a gente ganha o mundo, a gente mais se encontra do que se perde. Verdade. Quanto mais eu saio do lugar, mais eu sinto que estou onde deveria estar.

Sr. mundo, bring it on.

The Fray - Happiness.

Resta-uma

Morar sozinha requer habilidade. Principalmente na arte de contar histórias. Quando vou dizer pra alguém – geralmente desconhecido – que estou no meio da selva e morando HOME ALONE, viro o próprio sobrevivente de guerra e conto tudo morrendo de orgulho. Pra mim é como falar que lutei, sofri o diabo e hoje tamos aí: na tranquilidade, rindo da vida e exibindo cicatriz como troféu.

Dito isso, enquanto tem gente que acredita ser uma GRANDE BRAVURA eu ficar longe da família e me jogar na paulicéia,  há os que cagam pra minha grande vitória, afinal, todo mundo taí cheio de problema e morar sozinha tá longe de ser um grande desafio na vida. Fato.

O que eles não sabem é que, se eu estou vivendo allbymyself há 5 meses, 4 deles representaram apenas uma coisa: perrengue. Ora nunca vi vantagem nesse negócio de solidão. Nunca cogitei não poder contar com estabilidade familiar no quarto ao lado. Sempre fui SIM, a menina mimada que teve tudo na mão  - menos dinheiro. Então óbvio que quebrei a cara quando percebi que ganhar no resta-um era BEM MAIS tenso do que eu previa.

Eu morava em uma das cidades mais lindas do Brasil. Com meus pais, meus amigos, praia e tranquilidade. E vim pra São Paulo.

Pra não me achar burra, tento pensar que tenho coragem.

Penso tanto, que hoje já acredito. Porque jogar tudo pro alto, pular de estado e  abraçar dona saudade só pra pagar aluguel e progredir profissionalmente pode ter parecido um impulso maluco no início, mas hoje já compensa: no aprendizado, na  independência e no drama, que agora tá aí pra virar piada. Ou seja, se foi impulso, só pode ter sido pra frente.

Obviamente, não há prazer algum em pagar contas. Nem em constatar que fogão e você não nasceram para o convívio. Pior ainda é ficar carente às vezes e só contar com a visita do delivery. MAS QUAL NÃO É A BELEZA de fazer tudo na hora e do jeito que bem entender? Cresci e tô ainda brincando de boneca no sentido mais real da coisa. A diferença é que agora la muñequita soy yo.

É divertido, mas é difícil. Se o coração aqui é mole, a cidade é de pedra. E enquanto mnha necessidade de mutualismo grita,  as regras daqui só me provam que bacana mesmo é ser um robô. E viver como essa gentarada cinza que tem rios de inteligência, mas ainda não sabe somar 1+1. Eu continuo dando a cara à tapa e levando socos.  Mas agora já faço pagar a língua quem um dia disse que é impossível ser feliz sozinho.

Já passei muito perrengue, mas tudo passa. E em SP passa mais rápido ainda. Em junho, fiz 1 ano morando aqui. Hoje, faço 1 ano na ID\TBWA, agência onde trabalho. Tanto aniversário e o único brigadeiro que vi foi num nome de avenida. As palmas, são pra acordar. O bolo, eu mesma fiz e comi.

Há 1 ano atrás, eu tinha uma visão completamente diferente de tudo e de mim. Hoje, já são 5 sentidos ativos, e eu ainda mais.

mas vortemo.

Fiquei nem um ano sem escrever e já parece que foi uma década. Nesse meio tempo muita coisa aconteceu, muita coisa mudou, e tudo numa velocidade absurda. Ou seja, virei maratonista. E maratonistas não têm tempo pra escrever, nem assunto definido, principalmente quando não sabem bem pra onde estão correndo. A sorte é que eles têm o pé no chão. O que não os livra de tropeços. E depois de colecionar uns arranhões sobro eu aqui, estranhando tudo o que foi escrito antes de hoje. Era outra pessoa, outro contexto, outro capítulo, mas, ainda sim, é uma placa me indicando o caminho de volta. Resumindo: acho meus textos antigos uma bela bosta, mas ainda assim sou eu - e de nós mesmos não dá pra fugir (nem correndo).

Teve gente que me pediu pra voltar com o blog, gente que esqueceu, gente que me classificava como “blogueira” quando nem sabia o endereço. No fim das contas, a maior plateia aqui sou eu. E, com periodicidade ou não (aposte no “não”), fazer algo por ela é minha única intenção nesse espaço. A minha vida tá maluca, mas tá incrivelmente gostosa. Acordo, tomo banho e nesse meio tempo já odiei e amei tudo umas 500 vezes. Oscila, mas o saldo continua positivo. Os lucros, vou compartilhando por aqui.

PS: o template tá completamente torto. Como designer eu sou uma ótima redatora.