Outro par.


Era verão, fazia calor, e definitivamente meio-dia não era um bom horário pra bater perna no Centro. Mas lá estava eu. Trabalhava perto, almoçava perto, a formatura estava perto... Tudo é perto nessa cidade! Com exceção das sapatarias baratas: essas eu não encontrava de jeito nenhum. Um mundaréu de lojas, 42 graus no termômetro e eu precisando de um sapato preto (e barato) em pleno verão.

Tudo porque alguém, um dia, decidiu que na sua formatura você usaria um lençol preto como indumentária. Por baixo dele, calças pretas. Por baixo de você, sapatos pretos. E não importa quando glamour reinasse na minha vida, eu não tinha um par desses. Sei lá, simplesmente não tinha. Melissa colorida não combinaria. Então, fui buscar.

Depois de andar mais do que procissão em dia santo, encontrei uma loja com preços módicos. Cheguei lá, "me vê um 37", sentei na cadeirinha e observei o lugar. Acho que sapataria é uma das poucas salas de espera em que você espera feliz. Isso porque normalmente o atendimento é breve. Mas como preço baixo + atendimento de luxo são fatores incompatíveis, passei meia hora esperando.

Sou paciente, sabe. Fiquei olhando tudo. Eis que entram duas mulheres contentes, uma senhora e uma moça. Sentaram-se na minha frente e começaram a conversar. Logo percebi: a mais velha era sogra da mais nova. E eram bem amigas, com direito a frases como "que delícia fazer compras com a sogrinha". Poooxa, tive que admirar! Sogras são legais e tudo mais, mas "uma delícia" exige, né? Achei bonito. A partir daí, não tive como não me envolver na conversa.

Acontece que a relação das duas não existia mais. A tal sogra, na verdade era ex-sogra (tá explicado). E a tal "comprinha delícia" era pretexto para que a mais nova desabafasse as dores do namoro fracassado. Concordei. Quer lugar melhor pra chorar as pitangas do que loja de sapato? Quer pessoa melhor pra ouvir sobre aquele safadosemvergonha do que a mãe do dito cujo? Mas a menina sofria. Ela não queria ser ex. Nem da sogra, nem do garoto.

Desabou a chorar. Ali mesmo, com sapatos, clientes e calorão. Soluçou, gritou que queria o menino: "fala pro seu filho que eu amo ele demais!". A sogra se compadeceu. Aliás, todos se compadeceram. Deu nem cinco minutos e já havia 3 vendedoras ao redor da mocinha. Eu, inclusive. Todas seguravam a mão dela, pediam calma, diziam "vai passar". Viraram melhores amigas instantaneamente.

E eu voltei pra casa feliz com essa cumplicidade e desprendimento que as mulheres têm. Nenhuma delas conhecia a moça, mas todas conheciam bem aquela dor da perda. Sabiam exatamente como era e o quanto demoraria pra passar. Sabiam que não era feio chorar por amor, nem pedir - ou dar - ajuda quando fosse necessário. E todas nós voltamos pra casa com sapatos novos, e os velhos sentimentos de sempre. Seja pra resignar, angustiar ou ajudar alguém com sua experiência arranhada - o amor sempre acha um jeito de ser bom de novo.


360º


"O mundo gira".
Poucas frases me fazem tão bem quanto essa. Claro, é indiscutível a obviedade e gigantismo do movimento de rotação do planeta. Mas impressionante mesmo é o que ele é capaz de fazer pela sua vida. Não é só uma simples metáfora, é fato: tudo, com o tempo, muda de lugar. A luz muda de intensidade, o topo vira fundo, a importância muda de foco. É absurdo pensar em estabilidade quando nem o próprio chão em que você pisa é imutável. E eu gosto muito disso, dessa inconstância da vida. Por mais que ela tire de você qualquer senso de segurança permanente, é ela quem te presenteia com a possibilidade de uma volta por cima. Em outras palavras: se o que é bom dura pouco, o que é ruim também não permanece.

Conforto para os insatisfeitos, ameaça para os acomodados. E eu fico com a primeira opção. Porque só quem está no meio do furacão pra saber o quanto é importante que um dia venha depois do outro. Eu fecho os olhos, intimido o calendário, engulo o choro. Proclamo o tempo como o meu melhor amigo - quase sempre, é ele quem tem a cura e as respostas para essas dores difíceis de categorizar. Eu olho para fotos, eu massageio meus pés, eu me sinto miúda. Mas o mundo gira, Milena, ele gira.

E aí eu penso que o coração, como músculo que é, também pode se fortalecer depois de tantos exercícios de "mundo girando". Porque posso ser a pessoa mais sedentária que conheço, mas no meu peito mora um atleta. E mesmo com tantas medalhas conquistadas, hoje ele só tem a mesma sensação de fracasso, de perda, de alguém que poderia ir mais longe. Eu mesma poderia ir mais longe. Mas quando acredito que já me conheço bem, vem alguma parte de mim se apresentar e dizer que tudo mudou de novo. O mundo girou de novo. E independente de qualquer escolha, ele me levou junto.

E eu fui. Porque pra dar uma volta por cima, em algum momento você precisa estar por baixo. Foi assim quando me mudei de São Paulo para Floripa; quando achei que não ficaria bem sem alguém; quando o vazio parecia imenso - e quando vi tudo sendo preenchido por novas certezas. É sempre assim: ele gira, mas o eixo não muda. É dessa elasticidade dolorida e paciente que a minha tranquilidade depende hoje, pra que tudo volte pro lugar - aonde quer que este lugar esteja.

Sabendo disso, eu nem tenho mais medo. Nem tenho vergonha. Só respostas prontas.
Pro ex namorado que te fez mal e agora te quer de volta: o mundo gira. Pra alguém que te prejudicou e agora te vê no alto: o mundo gira. Pro antigo vício: o mundo gira. Pra mim: girei com ele.

Eu não sei descascar laranja.


Há muitas coisas nesse mundo desenfreado que me fazem sentir uma anã, impotente e pequena. Há aquelas imutáveis, como as chuvaradas que caem justo no dia de praia, mas há também aquelas que, infelizmente, algumas criaturas é que fazem o grande favor de criar.

Por exemplo, todo mundo, obrigatoriamente, deve ter opinião sobre tudo. Deve ter referência, ter bom gosto musical, ler toda a literatura brasileira e entender de Tarantino, Almodóvar e Hitchcock - ou fingir que entende. Se você é publicitário mesmo, prepare-se para incorporar o google. Ou, pra se corroer por dentro se não leu sobre o assunto do momento. Ok, tá bem que toda profissão exige informação, é realmente indispensável viver em alerta. Mas daí a ficar fazendo disputas de "eu sei mais" no happy hour de sexta à noite já é demais. É primário, e muitas vezes mentiroso. Mas acreditem, acontece direto.

Por mais que seja lindo, sabe, esse negócio de ser culto. Admiro muito quem, nessa rapidez constante de informações, consiga pescar todas elas e ainda criar teorias! O fato é que às vezes eu simplesmente me limito ao meu quadrado e confesso: não sei nada dessas coisas. Ué, não sei! Não sei descascar laranja, não conheço toda a discografia dos Beatles e tô pouco ligando pra política! Não gostei de Laranja Mecânica, não gosto de muito rock que a maioria exalta, não bebo vinho seco e conheci o tal do Nietzsche mês retrasado. Ah, e não assisto Lost. Tão entendendo?

Eu até aprecio isso de "estar por dentro", e por necessidades profissionais, procuro estar. Mas gosto mesmo é de ler revista NOVA deitada na cama, com meu pijama de flanela. Gosto é de ouvir hiphop no ipod que eu ganhei quando a moda já era iphone. ÀS VEZES EU GOSTO É DE FiLMINHO BURRO! De trama fácil, água com açúcar e previsível. Gosto é de usar o freio quando todos só querem saber de correr, de me assumir alienada nesse mundo cheio de humano chato. Sim, inteligentes que só vendo. Mas de que vale ser inteligente se você não souber rir nas cassetadas do Faustão? Haja saco pra viver impressionando!

Não é à tôa que tanta gente se sinta inadaptada. Eu mesma me sinto mais perdida que cupim em metalúrgica. E não é porque exista algum tipo de desinteresse com coisas boas da vida ou uma recusa à evolução. Eu sei sim apreciar o que é bom. Só não acho que esse apreço deva ser proclamado como obrigação. Ou que seu oposto seja encarado como idiotice. O fato é que ainda acredito que, no fundo, todo mundo tenha um coração bem simples. Aquele mesmo da sua infância, em que você se satisfazia com latinhas de tinta guache, livrinhos de história, e um gramado pra correr. Pena que, em algum momento, a grama do vizinho ficou mais verde e a tinta virou disfarce. Só as historinhas é que continuaram.


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COCA-COLA VIBEZONE 2008

Convenhamos. Nada melhor para um "desprendimento social-psicológico de pressões" do que uma bela festança. E olha que beleza de coincidência: a terceira edição do Coca Cola Vibezone vem aí! Conheço gente que foi e disse que não tem nada melhor. Essa vai rolar no dia 16 de agosto, em Gramado -RS. Serão 20 artistas e um monte de atrações em três áreas com diferentes shows acontecendo ao mesmo tempo. Ou seja: tem festa pra todo gosto.

Tá mas e daí? E daí que se você tiver o espírito festeiro correndo nas veias, pode levar, assim degrátis, 2 convites VIP, entregues pela blogueirinha aqui. Pra ganhar, tá mais fácil que dormir em palestra: basta escrever um scrap na página de recados ou perfil do seu Orkut, ou uma foto bacanuda no seu Fotolog convidando todo mundo pro evento. O scrap ou foto mais diferente e criativo leva. Duas pessoas serão selecionadas pra ganhar 2 convites cada uma, então bóra que a chance é dupla!

Só não esquece de me mandar aqui pelos comentários o link da tua página de recados no Orkut, ou da foto no Fotolog.
A programação toda você pode ver aqui. Semana que vem eu coloco aqui os baladeiros premiados.

E pra galera da organização: tá mais do que na hora de fazer uma dessas aqui em Floripa, né não?